América renegada

“Estamos en el mundo para entreayudarnos y no para entredestruirnos”

Simón Rodríguez

 

Por que na America Latina, a despeito de todos os dissabores da colonização, os povos continuam aceitando políticas de educação excludentes, que legitimam e permitem ditaduras e abusos de poder?

Em 1838, há quase cem anos, era publicado Luces y virtudes sociales, de Símon Rodríguez. Naquele momento ele já chamava a atenção a uma situação que não mudou até hoje: a juventude não se levanta contra a falta de oferta de educação.

La juventud americana necesita abrir los ojos sobre su situación política, y los niños tienen que aprender a leer; los jóvenes que han de reemplazar a los padres de hoy, deben pensar e escribir mejor que sus abuelos, se quieren que en América haya pátria y lengua. (RODRIGUEZ, 1838)

Rodríguez fala à juventude americana, não apenas aos jovens colombianos, argentinos ou brasileiros, porque já entendia que este é um problema comum na América Latina. A começar pelo fato dos latino-americanos não se considerarem americanos! A ideia de inferioridade intelectual de colonizados está tão arraigada entre nossos jovens que até nos detalhes pode ser percebida.

Pela educação as gerações se superam, e é da educação básica que derivam as outras educações, inclusive a política e a social. Os jovens dos povos latino-americanos são conhecidos em suas sociedades pelo engajamento político no sentido estrito, de luta sindical, mas parecem não se dar conta do quanto sua situação política é prejudicada pela falta de estrutura educacional em seus países.

Quando falamos aqui em educação entenda-se EDUCAÇÃO com letras maiúsculas. Não estamos aqui as voltas com a antiga discussão de taxas de analfabetismo e letramento – é importante que todos saibam ler as letras, mas é fundamental que todos saibam ler o mundo, como já pontuava Paulo Freire.

Temos ainda espalhados pela América Latina sistemas educacionais imbricados de feridas, marcados pelos traços do autoritarismo, das ditaduras, dos regimes militares castradores da liberdade e da criatividade. Foram reformados, emendados, mas em pouquíssimos casos realmente reestruturados.

 O que impressiona é como nossa juventude, tão ávida por voz e pela tomada do espaço público, não percebe como é manipulada pela educação que lhe é oferecida – ou pela falta dela. Talvez a própria falta de consciência quanto à necessidade de se lutar bravamente por uma educação justa e democrática, seja reflexo da falta de noção de pátria como espaço intelectual e não apenas geográfico.

O ideal pelo qual a juventude latino-americana deve contestar é ligado a língua e a cultura desta pátria geográfica pela qual já levanta em luta. E enquanto políticas educacionais forem excludentes e elitizadas, como ainda o são na maior parte do território latino-americano, o ideal de pátria estará seriamente comprometido, a despeito de já estarem resolvidas (quiçá) todas as discordâncias quanto ao pertencimento geográfico de cada comunidade.

  

RODRIGUEZ, Simon. Luces y virtudes sociales. 1938.

Convicções

Convicções são importantes para os seres humanos, embasam algumas regras morais que não se explicam por si. Ter convicções, sejam elas quais forem, é visto como sinal de personalidade definida, e estas convicções tem muito mais ligação com a história de vida de cada um do que com suas crenças e aspirações.

Construídas ao longo da vida, as convicções têm um caráter norteador de conduta, e na maior parte das vezes são responsáveis pelas escolhas feitas em momentos de crise, quando a razão dá sinais de desfalecimento. Mas existe um lado negro das convicções que deve ser considerado: o convicto muitas vezes se torna refém de sua convicção!

É relativamente fácil se posicionar a respeito de determinados assuntos com demonstração de absoluta convicção, ainda que nunca se tenha passado por algo parecido. E é aí que reside a duplicidade da convicção, baseada em questões morais e racionais ela tende a deixar de lado os aspectos emocionais, que podem levar a atitudes extremas em situações específicas. E aquele que julga o outro a partir de determinada convicção abre precedente para ser julgado pelo mesmo critério, o que pode torná-lo bem limitado em seu querer.

É simples: aquele que acusa o outro de futilidade por um momento de lazer deve estar constantemente se policiando para não ter atitudes parecidas, aquele que abre a boca para incriminar o outro que perde o controle e fala demais precisa medir cada palavra para não ser acusado do mesmo. Ação e reação.

Desta forma, excesso de convicções ferrenhas podem criar uma espécie de jaula social em que seu comportamento precisa se enquadrar. E a partir destas limitações e considerações toda atitude do convicto deve ser baseada. Em resumo, o extremista em suas convicções cria para si um cativeiro terrível, de barras invisíveis aos outros mas bem delimitadas para ele próprio, limites que podem agredir sua própria liberdade de expressão e de escolha.

Arcabouço ou Calabouço?

A língua portuguesa tem suas artimanhas para ser bem utilizada, e algumas palavras muito próximas podem dar sentidos completamente diferentes para uma mesma frase. É o caso de arcabouço e calabouço: a primeira, muito usada em meios acadêmicos de pós-graduação, e a segunda muito pertinente à história, usada por professores de educação infantil em contos de castelos e dragões.

De forma simplificada, arcabouço significa estrutura, eixo. Já calabouço é uma prisão subterrânea, o último subsolo de um castelo. A raridade com que a primeira é utilizada em construções não estritamente acadêmicas faz com que, quando aqueles que não estão diretamente envolvidos nesse contexto a ouçam, seja confundida com a segunda, de significado bem diferente.

E mesmo entre mestres e doutores as duas palavras por vezes são confundidas, principalmente por aqueles que acreditam na ciência como reescrita de outros autores, e não como pensamento emergente de outras ideias. Ciência se faz com estudo, inclusive estudo das palavras e de como devem ser utilizadas. O discurso inteligente tem a ver com bagagem cultural e intelectual, não com o uso de palavras bonitas em contextos discutíveis. E isso vale para todos, inclusive mestres e doutores.

Deixo a dica: arcabouço sustenta, calabouço prende. Arcabouço é o que te possibilita ter voz ativa e argumentar, e calabouço é exatamente o que te impede de fazer isso. Existe uma ciência para poucos, que prende como um calabouço, mas a ciência que desejamos, a de muitos, é democrática, um arcabouço que sustenta as que virão.

Manifesto

Deve ser bem difícil pras pessoas feias conviver com as bonitas. Pessoas bonitas por dentro e por fora são naturalmente o centro das atenções, mas não é de propósito pra sacanear os feios! E assim como tem muito tipo de beleza, tem muito tipo de feiura… Essa gente não-linda precisa entender que não é na base da inveja, da futrica e de criar intriga que vão ter mais atenção. Comportamento pequeno de gente feia (por dentro e por fora), que acha que só por ser indesejada tem direito de ser insuportável, me irrita! Isso não é ter atitude, isso é ser recalcada… e é desagradável. Então gente feia, dá um tempo? Embelezar o mundo e ser feliz já consome energia demais!

Hermano!

E o novo Papa foi escolhido, e ele é Argentino! Um hermano, de fato. Papa Francisco, de Buenos Aires.

A Catedral de Buenos Aires é linda, e todos são acolhidos ali – e falo do que vi e não do que me disseram. A história do padre chama a atenção, se levantou contra a ditadura como poucos religiosos no poder tem coragem de fazer – e falo do que a história do povo conta, não só a oficial. Como voltei de Buenos Aires há pouco posso dizer, sem meias palavras, que vi de perto grande parte do que o novo Papa Francisco construiu, e fiquei admirada.

Como não podia deixar de ser o Brasil parou para assistir a escolha do Papa. As bandeiras verde e amarelas tremularam, os novos teólogos comentaristas fizeram toda sorte de observação até o anuncio oficial ser feito. Parecia até final de copa do mundo, todas as equipes de jornalismo aguardando a saída na varanda do Vaticano.

E a reação da mídia com o anúncio do Papa argentino foi até engraçada. E agora, como contornar a superexposição em torno da eleição do primeiro papa brasileiro, se quem ganhou foi justamente o argentino?

Os gracejos relativos ao fato já estão por todos os lados. Televisão, rádio, facebook, instagram, em todo lado já se encontram observações nem sempre tão pertinentes sobre o fato. Vejam bem, ele é o novo Papa, uma pessoa designada para unir os povos católicos, e não o novo ganhador do Big Brother. Realmente não importa muito se ele é argentino, uruguaio ou francês certo?

Apesar de que, no fundo, acho que pode ser bem valioso o novo Papa ser Argentino. Por questões de colonização, e até por pertencermos ao grande balaio que é a América Latina, um Papa que construiu uma história tão próximo a nós (geográfica e politicamente) entende bem os problemas que o povo que está abaixo da linha do Equador vive todos os dias, e enfrenta de cabeça erguida.

Aqui embaixo, ao sul do corte imaginário do mapa que ainda divide os que sabem dos que estão por saber, que divide o poder maior do poder menor, a Igreja Católica foi muitas vezes vilã, julgou muito, condenou ainda mais. Mas ainda assim o número de católicos nestes países é muito expressivo, e a religiosidade é exaltada com fervor.

Um Papa que vive esta realidade, que entende como a fé é importante por aqui apesar de todas as injustiças que já foram cometidas – inclusive em nome da própria igreja – pode realmente mudar os caminhos do catolicismo, que precisam ser revistos urgentemente. Ninguém mais apropriado ao meu ver!

Opções

Na vida existem verdades e mentiras. Essa é a real, não existe meia verdade e nem meia mentira, nem mentiras sinceras e nem verdades desnecessárias. Ou dizemos a verdade ou mentimos, ou ficamos quietos, essas são as opções possíveis. Ainda que muitas vezes se queira, desesperadamente, encontrar uma forma de amenizar a verdade, por assim dizer…

E quando se trata de crer funciona da mesma forma, existem as coisas plausíveis, nas quais acreditamos fielmente, e existem as coisas não-plausíveis, nas quais não acreditamos e ponto – e existem as variações dessas duas situações, é claro. Muitas vezes nos deparamos com situações em que acreditamos ou não, e outras pessoas tentam nos convencer de que estamos errados, mas isso dificilmente funciona… quando cremos em algo (ou não) apenas um motivo muito forte nos faz mudar de idéia.

Agora, e as coisas que optamos em acreditar, como funcionam? Existem perguntas que simplesmente não têm resposta, nas mais diversas áreas da vida, e se torna questão de opção. Como queríamos essas respostas! Coisas relativas ao futuro e que envolvem sentimentos alheios geralmente se encaixam nesse quadro. E ai apelamos pro senso comum, nos abrimos com amigos, contamos o que nos aflige, e eles dão suas opiniões – uns acham que a pessoa gosta de você, outros não, uns acham que você pode ser bem sucedido mudando de profissão, outros não… .E aí escolhemos. Com base em nenhuma ciência e em nenhum dado concreto optamos por acreditar ou não que nossos sentimentos são correspondidos, ou que nossas decisões são as mais acertadas.

Me intriga o que realmente nos leva a estas opções, definitivamente não é a racionalidade. Será que é uma certa intuição ou apenas nosso desejo de que esta seja a verdade? Optamos diariamente por acreditar em fatos e em pessoas, principalmente em pessoas – e muitas vezes nos arrependemos. E alguém sempre pergunta: “Mas porque você achou que ele ia agir assim depois de tudo o que já aconteceu?” ou “Por que você não muda de atitude pra ver se dá mais certo em vez de insistir?” – e nunca sabemos o que responder! Depois que aconteceu o que não deveria, ou depois de nos decepcionarmos, parece infantil até dizer que aquela parecia ser a única opção correta. Talvez sejam essas verdades que optam por nós, inconscientemente.

Algumas vezes escolhemos acreditar em coisas que não são verdade, infelizmente. Optamos em acreditar porque faz bem achar que as coisas podem ser mais bonitas do que parecem, que existem borboletas dentro dos casulos de lagarta. E algumas vezes tem mesmo, mas na maioria delas não. As coisas muitas vezes não são o que parecem, isso lá é verdade, mas as vezes temos que admitir que elas são do jeitinho que parecem mesmo. E quando as evidências são muitas devemos ser mais atentos: em quase toda fumaça há fogo.

De toda forma, cair na realidade de que acreditamos numa situação ou pessoa inexistente/incoerente é difícil e dói. Principalmente porque tínhamos a opção de não acreditar, o que nos dá uma parcela de responsabilidade sobre o próprio sofrimento. Mas passa, e deixa a lição pra vida. Já que a verdade não é aquela que gostaríamos é melhor saber logo, porque ninguém gosta de viver numa ilusão com prazo de validade.

*** Texto publicado em Revista Caminhar (2010), reeditado para Entrelinhas (2013)

O novo Papa

A teoria de que os brasileiros são naturalmente muito competitivos, que defendo com frequencia, se faz muito pertinente novamente esses dias. Retomando o conceito, para aqueles que ainda não conhecem: o povo brasileiro tem paixão por torcer, pela expectativa e pela disputa, muito mais do que por um time, um esportista ou um ideal. Nossa grande vitória é vencer, ou ver o maior inimigo perder – e se possível ambos!

Vejam vocês que nosso povo torcedor, na falta de grandes eventos esportivos e de polêmicas envolvendo (sub)celebridades, encontrou nesses últimos dias um novo entretenimento para exercitar sua energia torcedora: o conclave!

A eleição do novo Papa, líder religioso da Igreja Católica, é um assunto que ganha uma imensa atenção das mídias dos países católicos. E como o Brasil é, ao menos em teoria, um país católico, não poderia ser diferente. Já era esperada essa atenção especial à reunião de cardeais para a escolha no novo Papa, até pelas características sigilosas da atmosfera do conclave – e tudo que envolve segredos e poder atraia a atenção do homem, seja qual for sua nacionalidade. É da natureza humana.

O que não era assim tão esperado, principalmente se considerarmos a quantidade de religiões que se integram no Brasil, seria ouvir falar do conclave em todos os nossos telejornais, programas de variedades, programas de entrevistas, jornais, revistas. A mídia brasileira simplesmente abraçou o conclave! Representantes especiais aguardam para transmissões em tempo real, infográficos foram criados para explicar o procedimento de votação dos cardeais, comentaristas teólogos falam sobre os favoritos e pesquisas apontam a opinião da população sobre a votação, ainda que isso não influa em absolutamente nada.

E por que a população brasileira não questiona a situação? Resposta simples, temos um concorrente brasileiro à vaga! Sem nenhuma demagogia ou desrespeito à religião católica, da qual faço parte inclusive, mas o conclave se tornou assunto com toda essa expressividade porque “estamos na disputa”.

Não será de se estranhar que charges com a fumaça que sinaliza a decisão dos cardeais saindo verde e amarela surjam nos próximos dias. Nem que novos teólogos/comentaristas passem a fazer análises estatísticas sobre quais cardeais tem maior ou menor possibilidade de “votar no Brasil”, quais seriam nossos aliados, e por aí vai…

A possibilidade do novo Papa ser brasileiro tem deixado inquietos até mesmo adeptos de outras religiões, que em outras situações possivelmente sentiriam certo desagrado com esse excesso de catolicismo midiático. O ato de torcer realmente une nosso povo!

Que ao menos esta situação sirva para que o brasileiro seja um pouco mais democrático com as questões religiosas. Uma vez que são capazes de torcer pelo Papa brasileiro juntos, que sejam capazes de conversar também sobre outros assuntos religiosos assim, em paz. Podemos dar o exemplo! Afinal de contas, Deus é um só, e há quem diga até que é brasileiro!

No mais, vai Brasil! Traz o titulo, o santo e a benção – que estamos mesmo precisando…

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa

Endereço novo para uma escritora já chegando aos 30. Os textos mais comentados desses anos estão a disposição nos links, o resto do espaço está reservado para todas as coisas do mundo que serão visitadas e revisitadas de agora em diante. Enjoy it!